Chegamos ao último coração. Já falamos do coração das beiras, do coração das pedras e do coração dos espinhos. Agora chegamos ao bom coração. Jesus comparou o coração ao solo - esse material difícil de definir, feito do resto das iniciativas frustradas, dos sonhos que já morreram e estão decompostos, aptos para nutrir novas empreitadas, ou petrificados, servindo apenas de memorial à dor, fazendo o passado ser presente.
Jesus dá três exemplos de como o solo/coração pode ser disfuncional. E por fim, fala de um coração funcional. E se estamos falando de terra, sabemos que uma terra funcional é aquela bem nutrida, aerada, húmida, apta para produzir vida, produzir fruto, ser útil.
Esse é o coração que recebe a palavra de Deus e a apreende, abraça, prende dentro de si, como um solo bom recebe uma semente. E aí é uma coisa linda, porque essa semente pode se desenvolver.
O bom coração não é um coração que assimila a palavra - ao contrário - é o que se deixa ser assimilado por ela. Porque é a semente que retira do solo o seu material básico e com ele, cresce, se estrutura, produz frutos em grande quantia.
Mas do que a semente se alimenta? Daquilo que foi um dia outras plantas. O resto das iniciativas frustradas, dos sonhos que já morreram, de tudo que já foi e não é mais. Porque aquilo que já foi e ainda é, como vontades ocultas, medos, desejos, que ainda estão latentes, esses não permitem que a semente se desenvolva. Um solo só pode receber uma semente quando seu material vegetal já foi todo decomposto, senão, a fermentação desse material mata a semente. É preciso que morramos para a nossa antiga vida, para que nasça em nós a verdadeira Vida.
Aquilo que para nós é um memorial de fracasso, culpa, dor, Deus decompõe, digere, e faz daquilo nascerem bênçãos, delícias para seus outros filhos; e para você mesmo, por ter o privilégio de ter em si uma obra linda que não é sua, nem foi você quem fez, mas que foi feita em você!
Mas, o que foi semeado em boa terra é o que ouve e compreende a palavra; e dá fruto, e um produz cem, outro sessenta, e outro trinta. (Mateus 13:23)
Se cristianismo é ser como Cristo, viver para servir e amar, o é a partir das nossas fraquezas, nossas debilidades; é a partir dos lugares escuros, sujos e podres da nossa alma. Aquele que se abre para ser assimilado pela palavra, iluminado pela sua verdade inescusa, nutre a semente do Reino, que faz nascer toda sorte de bons frutos para sinalizar na terra que Deus é amor - e tanto amou a humanidade que a resgatou pela morte e ressurreição de seu filho - como uma semente que precisa morrer pra germinar. Cristianismo é lugar de gente que se enxergou débil, e colocou sua debilidade a serviço do Reino, para anunciar que é chegado o dia em que os débeis são transformados em filhos do Rei.
